sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

a sindrome do papagaio

Capítulo 1

A SÍNDROME DO PAPAGAIO... E DA MARITACA


A língua dos sábios adorna a sabedoria, mas a boca dos tolos derrama a estultícia. Provérbios 15.2

Há alguns anos, eu e um amigo conversávamos em sua casa sobre pregações e pregadores. Num momento de descontração, começamos a imitar alguns famosos animadores de auditório da época, e ele acabou gravando em áudio uma das minhas performances humorísticas...
Como eu jamais citaria a Bíblia ou o nome do Senhor em uma brincadeira, empreguei na "pregação" vários chavões de auto-ajuda, elogiei o público — formado por meu amigo, nossas esposas e filhas — e narrei a conhecida historinha do vaga-lume perseguido por uma cobra. Ao concluir o meu "sermão", perguntei: "Vocês sabem por que muitos nos perseguem? Porque não suportam ver a nossa luz brilhar". E finalizei, com voz alterada: "Brilhem, brilhem, briiilheeem..."
Passado algum tempo, esse meu amigo, sem dizer quem era o "pregador", apresentou a gravação que fizemos a alguns colegas de ministério, que reagiram de maneira surpreendente. Em vez de considerarem engraçada a "pregação", maravilharam-se da eloqüência de quem falava. E perguntaram: "Quem é este pregador? Ele fala com muita unção! Como podemos convidá-lo? Ele é daqui mesmo?"
Confesso que, num primeiro momento, ri dessa história. Diverti-me com meu amigo, dizendo-lhe que me senti lisonjeado com os comentários e que, a partir daquele momento, mudaria o meu modo de pregar, a fim de agradar aos que gostam de ouvir berros ao microfone e clichês que massageiam os egos.
Contudo, refletindo melhor, cheguei à conclusão de que não havia razão para rir. Isso porque a falta de discernimento tem aumentado, e a maioria dos pregadores jovens está seguindo aos maus exemplos dos animadores de platéia.

"RECEEEBAAA..."

No livro Erros que os Pregadores Devem Evitar, discorri sobre a síndrome do papagaio, que tem levado os servos de Deus a repetirem, sem nenhuma reflexão, o que dizem os super-pregadores, bem como os cantores-ídolos, isto é, pregadores e cantores que se comportam como astros, recusando-se a andar segundo a Palavra de Deus. E, agindo assim, arrebanham uma legião de fãs ou crentes nominais, que não seguem a Jesus Cristo.
Analisarei, neste primeiro capítulo, alguns chavões — expressões prontas, repetidas mecânica e irrefletidamente — tidos como bíblicos. Mas também tratarei de outra síndrome, a da maritaca, ave da família do papagaio cuja característica principal é o grito estridente.
Muitos ajuntamentos da atualidade não têm ordem alguma, e os pregadores, cantores e outros tão-somente exibem-se para uma platéia de crentes interesseiros, ávidos por bênçãos, cujo comportamento assemelha-se ao de fãs diante de seus ídolos. Como vimos na narrativa fictícia que abre este livro, boa parte dos cultos de nosso tempo não passa no controle de qualidade constante de 1 Coríntios 14.
É lamentável constatar que hoje os pregadores jovens não reproduzem apenas os clichês dos famosos animadores de auditório. Eles imitam também os trejeitos deles, a sua entonação de voz e, principalmente, os seus ensurdecedores berros ao microfone. Mas tenho de admitir, com tristeza: o povo de Deus, em razão de sua simplicidade, entusiasma-se com gritos do tipo "Receeebaaa..." ou "Profetiiizaaa..."
Não bastassem os gritos ensurdecedores — que sem dúvida fazem parte das obras da carne (Ef 4.31) —, há pregadores que, ao berrarem os seus clichês, ainda fazem movimentos estranhos, como se estivessem desferindo golpes de artes marciais...

"QUANTOS VIERAM BUSCAR UMA BÊNÇÃO?"

Esse chavão tem sido usado para abrir congressos e cultos públicos em geral. Mas a pergunta deveria ser outra: "Quantos vieram adorar a Deus?", haja vista o propósito principal do culto ao Senhor: adorá-lo na beleza da sua santidade. Infelizmente, obreiros que empregam esse clichê estão sentados na tribuna — alguns há dezenas de anos — e ainda não aprenderam o que é um culto.
Não preciso fazer aqui uma ampla explanação teológica para definir o culto a Deus. Trata-se do que apresentamos ao Senhor Jesus e a maneira como fazemos isso, quer individual, quer coletivamente (Rm 12.1,2; Mq 6.6-8; Sl 42.1,2). Individualmente, nunca termina, pois devemos cultuar ao Senhor em todo o tempo (1 Ts 5.17; Sl 1.1-3; 2 Co 4.6). Afinal, servimos a Ele e o adoramos em espírito (Rm 1.9; Jo 4.23,24).
Coletivamente, o culto também é para o Senhor, embora isso raramente aconteça em nossos dias. É claro que Deus nos abençoa e nos responde no templo ou onde quer que nos reunamos (Sl 73.16,17; Mt 18.19,20), mas os nossos ajuntamentos não devem ocorrer para sermos elogiados e recebermos bênçãos. Também não devemos ir ao templo apenas para pregar, cantar ou tocar um instrumento.
O pregador, o cantor e o músico precisam ter em mente que, antes de serem isso ou aquilo, devem ser crentes em Jesus e verdadeiros adoradores (Jo 4.23,24). Nesse caso, a sua prioridade é adorar ao Senhor, e não pregar, cantar ou tocar um instrumento. Se todos os obreiros do Senhor se conscientizassem disso, nunca ficariam tristes por não terem tido uma oportunidade para pregar em um culto.
Certa irmã mandou um bilhetinho para um pastor: "Desejo cantar um hino para Jesus". Como havia muitas participações de conjuntos, além dos hinos congregacionais, antes da pregação — que em muitos lugares tem sido substituída por peças teatrais ou "empurrada" para o fim do culto por causa de intermináveis cantorias—, a tal irmã não foi chamada para cantar. O pastor pregou e, após os avisos finais, concluiu a reunião.
Insatisfeita, a irmã que fizera o pedido dirigiu-se ao obreiro e lhe disse:
— Pastor, por que o irmão não me chamou? Eu queria cantar um hino para Jesus.
— Então, cante, irmã — respondeu o pastor.
— Ah, pastor, o povo já foi embora...
— Mas a irmã não deseja cantar para Jesus?
Precisamos refletir sobre as nossas motivações ao comparecermos a uma reunião no templo. Tomemos como base para isso 1 Coríntios 14.26, e não as nossas vontades. Temos ido ao templo para adorar a Deus e ouvir a sua Palavra? Ou para receber bênçãos e apresentar "louvores" e "pregações" ao povo?

"TEM FOGO AÍ, IRMÃO?"

Os pastores, os chamados ministros de louvor e principalmente os super-pregadores ou cantores-ídolos se valem do recurso de fazer perguntas à platéia ou elogiá-la, a fim de cativá-la. Mandam as pessoas fazerem isso e aquilo, como se os irmãos fossem marionetes ou títeres. Concordo que uma e outra pergunta sejam até cabíveis em uma reunião. Também não estou propondo o engessamento da liturgia. Mas o que temos visto hoje ultrapassa a todos os limites da tolerância.
Como as futilidades têm tomado conta de muitas reuniões tidas como cultos a Deus! Você já percebeu como tudo é de fogo? Varão de fogo. Sapato de fogo. Canela de fogo. Língua de fogo.
E essas efemeridades são usadas em tom de brincadeira, desviando os servos de Deus das verdades bíblicocêntricas. Daí surgirem perguntas esdrúxulas como estas: "Tem fogo aí, irmão?", "Tem fogo na galeria?", "Tem fogo aqui no altar?", etc.
Ora, eu já preguei sobre o fogo do Espírito várias vezes.
Não há nenhum problema nisso, pois o fogo é símbolo do Espírito Santo (1 Ts 5.19, ARA), assim como o vento (Jo 3.8), a água (Jo 7.37-39), etc. Entretanto, o que vemos em muitos cultos é um outro fogo, estranho, o fogo da carnalidade, da chocarrice, da falta de temor a Deus.
Em muitos lugares, se Deus mandasse fogo mesmo, consumiria a todos, haja vista as brincadeiras que têm feito em reuniões em que o nome dEle é pronunciado sem nenhuma reverência. "O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria..." (SL 111.10). "Guarda o teu pé, quando entrares na Casa de Deus..." (Ec 5.1).

"O ESPÍRITO SANTO ME REVELA..."

Em minha época de solteiro, eu freqüentava uma vigília na Zona Leste da cidade de São Paulo. Numa das reuniões, certo irmão afirmou, diante de todos: "O Espírito Santo me mostra um grande bife sobrevoando este local. Há muitos carnudos nesta vigília". Imediatamente, o dirigente da reunião pôs-se em pé, pediu para o irmão assentar-se e lhe disse: "Deus me revelou que o mais carnal aqui é você".
Alguns pregadores, em nossos dias, apesar do título que possuem, não pregam a Palavra de Deus. Sua especialidade é gerar movimentos e mexer com as massas, apresentando "revelações" que dizem ter recebido do Espírito Santo. Até lêem uma passagem bíblica, no início de suas performances, mas depois o que se vê é um animador de auditórios e uma platéia de marionetes, numa interação em que não há lugar para a Palavra e os genuínos dons espirituais.
Há pouco tempo, eu estava em um púlpito, em uma grande igreja, enquanto um pastor expunha a Palavra. Ao meu lado estava um desses super-pregadores da atualidade. Vendo ele que os irmãos recebiam a mensagem em silêncio, disse-me: "Ah, se fosse eu... Esse povão aí já estaria dando uns glória".
E, de fato, isso aconteceu. O dirigente do culto deu-lhe uma oportunidade, e ele fez de tudo, exceto pregar a Palavra. E o pior é que o "povão" gostou e deu "uns glória"...
Quem pronuncia palavras para animar o povo, afirmando que Deus lhe revelou isso e aquilo, mentindo, a fim de tornar-se famoso, deve se arrepender enquanto houver tempo (Ap 2.20-22). Afinal, o próprio Senhor disse: "... o profeta que presumir soberbamente de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não tenho mandado falar, ou que falar em nome de outros deuses, o tal profeta morrerá" (Dt 18.20). E alguns de fato estão morrendo por causa disso, principalmente no plano espiritual (Ap 3.1).
O povo se deixa mesmo enganar porque é ingênuo, em sua maioria, e se empolga com elogios e mensagens motivacionais.
Mas Deus continua dando um tempo para os super-pregadores reconhecerem que estão errados. Que eles olhem com seriedade para a Palavra de Deus e reconheçam que o objetivo do pregador não é animar o povo, e sim expor a Palavra como ela é, ainda que não agrade a muitos dos ouvintes (At 7.54-57).

"TEM SAPATO DE FOGO?"

Pregadores que não se preocupam em expor a Palavra — pois a sua missão é movimentar as massas — se valem de perguntas como esta: "Tem sapato de fogo aí, irmão?" Com muita tristeza assisti a um vídeo em que alguém que já foi considerado, unanimemente, o maior expoente da Assembléia de Deus no Brasil participa de um espetáculo deprimente.
No tal vídeo, o pregador é chamado por um animador de auditório, que, apertando a sua mão, pergunta-lhe: "Pastor fulano, tem sapato de fogo? Tem sapaaato?" E ele balança a cabeça, em sinal de aprovação. Quer saber o que aconteceu? Bastou um sopro — e não um soco — para levá-lo à lona, quer dizer, ao chão...
Fiquei pensando: Meu Deus, um homem que já foi um referencial para muitos jovens pregadores, um defensor das verdades centrais da fé cristã, alguém que admirei, cujos livros e comentários bíblicos para escola dominical eu li, caído ao chão...
E ainda acreditando que está certo. Que Deus nos guarde, e que vigiemos, a fim de que jamais apostatemos da fé.

"ESSA É UMA GERAÇÃO DE APAIXONADOS"

Você já notou como os jovens costumam empregar o verbo "adorar" para quase tudo de que gostam, menos em relação a Deus? "Adoro cantar", "Adoro dançar", "Adoro ouvir música", "Adoro chocolate", etc. Mas, quando vão falar do Senhor Jesus, o único de fato digno de adoração, dizem: "Estou apaixonado". Isso ocorre principalmente por influência de cantores-ídolos que "adoram" empregar frases de efeito, como: "Essa é uma geração de apaixonados" ou "Deus não rejeita um coração apaixonado".
Paixão, por definição, é irracional, passageira e não leva em conta princípios. A adoração, ao contrário, é racional (Rm 12.1), verdadeira (Jo 4.23,24) e envolve tudo o que há em nós: espírito, alma e corpo, principalmente o nosso espírito, que é a parte mais profunda de nosso ser (1 Ts 5.23; Lc 1.46,47; Sl 57.7).
Alguém poderá perguntar: "O que vale não é a intenção?" Na verdade, não podemos, ainda que bem intencionados, aceitar todas e quaisquer influências do mundo. E o clichê em análise, conquanto para muitos seja apenas uma simples questão de semântica, tem levado os jovens à concepção distorcida da verdadeira adoração a Deus, acima de todas as coisas, o que é muito mais que estar apaixonado!
Sei que alguém, ao ler esta abordagem, pode não estar muito apaixonado por este livro e seu autor. Mas espero, sinceramente, que reflita sobre a importância de adorar somente ao Senhor Jesus e segui-lo, abandonando a postura de fã (Lc 9.23). Não adianta nada alguém usar uma camiseta com os dizeres "Apaixonado por Jesus" ou viver cantando "Apaixonado, apaixonado, apaixonado...", se não andar como Jesus andou (1 Jo 2.6)!
Abandone, pois, essa canoa furada da geração dos apaixonados! Embarque no navio cujos passageiros são os verdadeiros adoradores, que seguem ao Senhor Jesus, que disse: "Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás..." (Mt 4.10).

"NÃO DESISTA DOS SEUS SONHOS"

Esse chavão tem sido propagado por super-pregadores, cantores-astros, pregadores sinceros (mas mal informados), cantores tementes a Deus (que seguem a maus exemplos) e crentes em geral atingidos pela síndrome do papagaio. Aliás, "Os sonhos de Deus" ou "O crente sonhador" são os temas do momento, tanto para composições musicais como para pregações.
Vou tratar desse assunto especificamente no capítulo 3, ao fazer a análise de uma canção que chamam de hino, mas quero aqui deixar claro que muitos pregadores estão deixando de pregar sobre o sacrifício vicário de Cristo, sua ressurreição, sua Segunda Vinda, para falar sobre sonhos. Preferem pregar sobre isso a ensinar sobre o batismo com o Espírito Santo, os dons espirituais, a renúncia, a santificação, etc.
Os animadores de auditório gostam de usar a biografia de José (Gn 37; 39-50) para dizer que o crente é um "sonhador". Usam frases de efeito, como "Crente sonhador não morre enquanto os seus sonhos não se cumprirem". No entanto, os sonhos de José foram sonhos mesmo, revelações de Deus, e não aspirações ou projetos humanos. Bem, falaremos disso depois.
Mas fica aqui o alerta de que o bordão em apreço é extrabíblico e antibíblico.

"OLHE PARA DENTRO DE VOCÊ"

Pregadores berram esse clichê com naturalidade, e crentes o assimilam, reconhecendo que de fato têm valor... Sabia que essa frase é cem por cento humanista e contrária à Palavra de Deus? No entanto, como as pregações, nos grandes congressos, têm sido, em geral, palestras motivacionais ministradas na base do grito, poucos se apercebem do perigo que há na supervalorização do ser humano.
Temos algum valor em nós mesmos, à luz da Bíblia? Que é o homem mortal? Em nossa carne não habita bem algum (Rm 7.18).
Somos considerados miseráveis, sujeitos a satisfazer os desejos da carne (Rm 7.19-24). O que faz a diferença em nosso pobre vaso de barro? O precioso tesouro que nele está (2 Co 4.7). Por isso, caro leitor, não acredite nesses animadores de auditório! Quanto a você, pregador, lembre-se de que não foi chamado para massagear egos. Não faça massagem; entregue a mensagem! A sua missão — se é que tem compromisso com a Palavra de Deus e com o Deus da Palavra — é falar a verdade (Jo 10.41). Leve o povo a olhar para Jesus, autor e consumador da fé (Hb 12.2), e não a olhar para dentro de si. Nada temos; nada somos. Humilhemo-nos debaixo da potente mão do Senhor, a fim de que Ele nos exalte (1 Pe 5.6; Tg 4.6).

"LIBERE UMA PALAVRA RHEMA"

Certo escritor, já falecido — cujas iniciais do seu nome são K.H. —, fez muitos discípulos (e alguns fanáticos) no Brasil, apesar de nunca ter demonstrado amor e fidelidade à Palavra de Deus. Alguém pode até duvidar do que Jesus disse, mas, se criticar as falácias do papai H., prepare-se para os ataques dos triunfalistas de plantão!
No Brasil, estão entre os fiéis seguidores de K.H. um famoso telemissionário, cantores-ídolos e outros telepregadores.
Ah, os animadores de platéia também têm bebido dessas fontes escuras e turvas. Resultado: todos eles mandam o povo liberar uma palavra rhema, pela qual podem pretensamente trazer à existência o que não existe...
"Isso é uma questão de fé", alguém argumentará. Não obstante, a fé também deve ser controlada pela Palavra de Deus, a nossa regra de fé, de prática e de viver. A origem de uma profecia — profecia mesmo, e não confissão positiva — não é a nossa fé. Afinal, não é a declaração do crente que é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e sim a Palavra de Deus (Hb 4.12), não é mesmo?

"PROFETIZE PARA VOCÊ MESMO"

Há algum tempo, participei de uma escola bíblica no Nordeste do Brasil, e lá estava um conhecido pregador de massa. Suas principais características: brincalhão, contador de piadas, cortejador, oferecido, imodesto e sem compromisso com a Palavra de Deus. Quer saber como foi sua pregação? Um festival de gritos, tal qual uma maritaca. Mas o povo vibrou com os seus gracejos.
O que mais me chamou atenção na performance do tal animador foi a frase: "Profetize para você mesmo". Ora, com quem ele aprendeu tamanho absurdo? Qual foi o profeta, nas páginas sagradas, que profetizou para si mesmo? Nem Jesus fez isso! E a regra bíblica de que devem falar apenas dois ou três profetas — e não todos, ao mesmo tempo —, enquanto os outros julgam? Nada vale o que está escrito em 1 Coríntios 14?
Quem julga uma auto-profecia? E se ela tiver origem no coração humano ou provier do Maligno? A Palavra de Deus não diz que o coração é enganoso (Jr 17.9)? Ela não nos alerta quanto aos espíritos enganadores (1 Tm 4.1)? Como, pois, alguém pode mandar os crentes profetizarem para si mesmos? Só mesmo um irresponsável para fazer uma coisa dessa.

"QUE OS DEMÔNIOS SEJAM QUEIMADOS AGOOORAAA..."

Há pregadores que, no início de suas performances, fazem orações exibicionistas pelas quais estimulam os que gostam de movimentos carnais, ocos, vazios de significado, desordeiros e indecentes. Eles dizem, nessas "orações", que os demônios ficarão distantes do local de culto tantos quilômetros. Caso algum demônio maluco — "pois só pode ser maluco para estar neste lugar", dizem — demore mais que cinco segundos para se retirar, é queimado imediatamente...
Apesar das efemeridades descritas acima, vou tentar analisar com equilíbrio a tese de que os demônios podem ser queimados quando alguém verbera contra eles, em um culto. Em primeiro lugar, proponho as seguintes perguntas: Os demônios entram num local de culto? Podem ser eles arrancados de um lugar onde os crentes se ajuntam, ou Deus permite que eles ali permaneçam?
Sabemos que o templo é apenas um espaço físico onde nos reunimos para prestar um culto coletivo a Deus. O Senhor Jesus age no meio daqueles que se reúnem em seu nome e habita no coração de seus servos (Mt 18.20; Cl 1.27). No entanto, isso não significa que o Inimigo deixa de agir na vida das pessoas que lhe dão lugar, mesmo dentro de um espaço onde ocorre um culto a Deus.
Nem Jesus ordenou que os demônios ficassem distantes dEle tantos quilômetros, tampouco deu-lhes alguns segundos para que desaparecessem, a fim de que não fossem queimaaaaaados... Não! Jesus, no auge de sua consagração ao Pai, em jejum e oração, foi tentado pelo Maligno, mas venceu-o pela Palavra de Deus (Mt 4.1-11).
Os demônios vêem e ouvem tudo o que acontece em um culto. E há casos em que são eles que agem no meio do povo, e não o Senhor Jesus! Imagine o caso da igreja de Laodicéia, em que o Senhor Jesus estava do lado de fora (Ap 3.20)! O pastor daquela igreja, sendo um desgraçado, miserável, pobre, cego e nu, dizia: "Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta". Haja arrogância!
É preciso ter em mente três definições para a palavra "igreja". Existe a Igreja como Corpo de Cristo, a igreja local e o templo, que também costumamos chamar de "igreja". Os demônios não entram na Igreja — com "i" maiúsculo —, porém no espaço destinado aos cultos sim, podendo também influenciar ou até possuir alguns indivíduos da igreja local, mesmo durante a performance de um super-pregador.
Portanto, mais importante do que ficar berrando ao microfone que os demônios estão sendo queimaaados, com a intenção clara de impressionar o ingênuo povo de Deus — que tem sido enganado por falta de conhecimento (Os 4.6) —, é ensinar os crentes a se sujeitarem a Deus (Tg 4.7a), a fim de que, de fato, tenham poder para resistir ao Diabo (Tg 4.7b; 1 Pe 5.8,9).

"CRENTE QUE NÃO FAZ BARULHO TEM DEFEITO DE FABRICAÇÃO"

É mesmo? Quer dizer, então, que o crente que grita é mais crente do que o que não grita? É a maritaca superior às aves silenciosas ou às que emitem suaves grunhidos? Quem disse que alguém para ser pentecostal tem de ser barulhento? Quando Elias saiu da caverna, em Horebe, o Senhor se manifestou por meio do vento que quebrava pedras? Estava Ele no terremoto ou no fogo? Não! Ele falou ao profeta mansa e delicadamente (1 Rs 19.11-13).
Há casos em que, de fato, há ruído, barulho na presença de Deus (Ez 37.7). No Céu, inclusive, haverá altissonantes vozes de louvor a Deus: "... ouvi no céu como uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor, nosso Deus" (Ap 19.1).
Mas nem sempre barulho denota manifestação do Espírito.
Não combato a liberdade de glorificarmos a Deus, e sim o mau costume que os manipuladores de platéia têm de mandar o povo dizer "aleluia" e "glória a Deus" enquanto pregam.
Isso é uma prática reprovável, pois ninguém precisa nos mandar glorificar a Deus, num culto. E se um crente, em um culto, quiser glorificar ao Senhor em voz baixa? É ele — repito — inferior ao que o faz como se fosse uma maritaca?

"FALE EM MISTÉRIOS, IRMÃO!"

É triste ver uma parte do povo de Deus sendo manipulada por homens que pensam estar lidando com fantoches! Mandam os crentes falarem em línguas estranhas a todo o tempo, como se pudessem fazer isso por iniciativa própria. Empregam seus bordões, levando os incautos, quais títeres, a fazerem isso e aquilo. Em sua prepotência, pensam até que podem controlar as operações do Espírito Santo!
Ora, as línguas estranhas — a rigor, desconhecidas de quem as pronuncia — são dadas sobrenaturalmente pelo Espírito de Deus. É Ele quem fala por meio de nós. Nesse caso, que história é essa de os pregadores estimularem os crentes a falarem em mistérios? Quanta presunção! E já não é de hoje que eles fazem isso, tratando os servos de Deus como marionetes.
Não sou contra as manifestações espirituais. Tenho convicção de que a promessa do derramamento de poder do Espírito é para hoje (At 2.38,39). Aliás, o Senhor sempre me tem dado mensagens em profecia e em línguas estranhas. Não sou eu quem resolvo falar simplesmente porque sou pentecostal! Tudo ocorre de modo sobrenatural. Ainda que, como profeta, eu tenha autocontrole (1 Co 14.32), não falo em línguas porque quero. O impulso é do Espírito Santo, que é soberano em suas ações (Jo 3.8).
É bom que entendamos, à luz da Bíblia, o porquê das línguas provenientes do Espírito de Deus. Elas podem ser dadas para edificação do crente; e, nesse caso, não há necessidade de que as pronunciemos em voz alta (1 Co 14.2,4). Mas há também as línguas pelas quais são transmitidas mensagens do Senhor, quer as inteligíveis — como ocorreu no dia de Pentecostes (At 2.7-12) —, quer as que necessitam de interpretação (1 Co 14.13,26-28).

"EU QUERO OUVIR AS SUAS LÍNGUAS ESTRANHAS"

As línguas estranhas não são produzidas por nós, mecanicamente, atendendo à ordem de animadores de auditório. E essa distorção até municia os inimigos do pentecostalismo, que gostam de zombar dos dons espirituais, principalmente devido aos abusos que ocorrem quanto às línguas estranhas. Dizem os chamados cessacionistas que existe contradição entre o que ocorre no meio dos pentecostais com o que aconteceu no dia de Pentecostes.
Concordo plenamente que esteja havendo, nesses últimos dias, mau uso dos dons espirituais. Prova disso é a banalização das línguas estranhas. Há inclusive uma "cantora" que gravou um "hino" que mescla pretensas línguas angelicais e uma descrição de um certo anjo de nome impublicável que habita num "lugar estreitinho e maravilhoso".
Mas, sabe de uma coisa? O que realmente importa é que existem de fato línguas provenientes do Espírito. A Palavra de Deus diz que, pelo mesmo Espírito, é dada a variedade de línguas e a interpretação destas (1 Co 12.10), as quais podem ou não ser inteligíveis por alguém presente num auditório, como vimos acima.
Lembro-me de que, há alguns anos, na Assembléia de Deus em Cordovil, no Rio de Janeiro, o Senhor me deu uma mensagem em línguas que eu desconhecia totalmente. Eu nada entendi, pois elas provieram do Espírito. Mas havia no púlpito um pastor que conhecia vários idiomas, o qual entendeu tudo o que falei. Pedindo o microfone, ele deu a interpretação.
— Irmãos, o Senhor falou claramente à igreja: "Eu sou o Supremo Senhor" — disse ele. Aleluia! Não precisamos, pois, de estímulo externo para falar noutras línguas. Ninguém precisa nos mandar fazer isso. Como diz a Palavra de Deus, "... um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer" (1 Co 12.11).
Esse assunto me fez lembrar de uma expressão muito usada em nossos dias: "reteté de Jesus". Você já ouviu alguém falar disso ou participou de um culto do reteté? Bem, esse é o assunto do próximo capítulo.



Capítulo 2

HAJA UNÇÃO!


Se alguém ensina alguma outra doutrina e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com a doutrina que é segundo a piedade, ê soberbo e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, contendas de homens corruptos de entendimento e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho. Aparta-te dos tais. 1 Timóteo 6.3-5

A palavra "unção" é uma das mais pronunciadas no meio pentecostal, ao lado de outras como "fogo", "glória", "vaso", etc. Há também expressões novas — e esdrúxulas —, como "reteté de Jesus". Se um pregador tem eloqüência, voz potente e principalmente facilidade para animar o auditório, todos dizem: "Fulano tem muita unção" ou "Fulano é do reteté". Afinal, o que é unção?
Nos tempos da Antiga Aliança, reis, profetas, sacerdotes e coisas (colunas, objetos, etc.) eram ungidos (Gn 31.13; Êx 30.26-30; 40.15; 1 Sm 10.1; 1 Rs 19.16; Sl 133). A unção simbolizava consagração de pessoas ou coisas ao Senhor. Mas, no Novo Testamento, Jesus afirmou, após ter lido um trecho de Isaías (61.1-2), que a profecia quanto à unção do Espírito sobre a sua vida tinha se cumprido (Lc 4.18-21). Deus o ungira, no plano espiritual, e isso em si já era o bastante para o cumprimento de sua missão na Terra (At 10.38).
O derramamento de azeite representava, antigamente, unção divina propriamente dita sobre a vida de quem ascenderia a uma posição de destaque (Nm 3.3; 1 Sm 16.13). No entanto, hoje, não é mais necessário ungir pessoas com azeite para consagração ou confirmação de seus ministérios. Basta a unção do Espírito Santo (2 Co 1.21; 1 Jo 2.20,27).
Também não é preciso ungir objetos, a fim de consagrá-los a Deus, pois o Novo Testamento menciona a unção literal somente para os enfermos (Mc 6.13), a qual deve ser aplicada pelos presbíteros da igreja (Tg 5.14). O azeite, além de símbolo do Espírito Santo (Zc 4.3-6), é o ponto de contato para estimular a fé do doente. Mas o recebimento da cura não está relacionado com a unção, e sim com a oração da fé, em nome do Senhor: "E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará" (Tg 5.15).

UNÇÃO DA "LOUCURA DE DEUS"

De tempos em tempos aparecem pregadores "ungidos" anunciando novidades dissociadas das Escrituras, mas sempre afirmando que têm o aval de Deus para isso. No plano espiritual, estão em voga as "novas unções", acompanhadas de "novas visões". Fala-se muito em "unção da loucura de Deus", com base em 1 Coríntios 1.25: "Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens".
Os espalhafatosos pregadores dessa "nova unção" vêem na passagem acima a justificativa para todas as aberrações que dizem e fazem. Alguns têm ministrado a "bênção do depósito celestial". Prometem que as pessoas que tiverem fé encontrarão uma grande quantia em sua conta bancária! No entanto, a suposta bênção divina traz ao "agraciado" um grande problema. Trata-se de um autêntico "presente de grego"!
Não pense que sou incrédulo. Creio sim num Deus que faz até moeda aparecer na boca de um peixe! Mas, se aparecerem, digamos, cinqüenta mil reais na conta de alguém, como fica a sua situação em relação à Receita Federal? Como o tal declarará isso no Imposto de Renda, haja vista não poder dizer simplesmente: "Foi Deus quem me deu"? O Senhor nos daria uma bênção pela qual nos tornaríamos sonegadores de impostos, infratores da lei?
Quanto à expressão "loucura de Deus", ela foi empregada por Paulo apenas para enfatizar o quanto os seres humanos, por mais capazes que sejam, estão aquém do Todo-Poderoso.
Ah, e ele também mencionou a "fraqueza de Deus". Por que esses "ungidos" não pregam também a "unção da fraqueza de Deus"? Como se vê, o texto que empregam não apóia as suas atitudes extravagantes e as suas ministrações insanas.
Por outro lado, em 1 Timóteo 6.3,4 o apóstolo Paulo — ao mencionar o "obreiro" que ensina outra (gr. heteros, "dessemelhante") doutrina e não se conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo — chamou esse tipo de "obreiro" de louco! E aqui é louco mesmo! Não se trata de linguagem figurada. Eis a descrição contida no versículo 4: "é soberbo e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras..." Não seria essa a loucura ou delírio presente na vida de alguns super-pregadores?

RETETÉ DE JESUS?

Uns dizem "reteté", e outros, "repleplé". Ninguém sabe ao certo o que significam essas expressões onomatopaicas — que devem ter se originado de uma brincadeira de péssimo gosto com as línguas estranhas —, usadas para identificar pretensos cultos pentecostais. Isso mesmo, pois, nos cultos genuinamente pentecostais, há exposição bíblica e manifestação do poder de Deus, e não brincadeiras com os dons espirituais e mau uso deles.
O termo "reteté" não consta de dicionários oficiais; é um neologismo. Mas há quem diga que teve origem no italiano; relacionado com a culinária, significaria: "mistura", "movimento", "reboliço", "festa", "aquilo que foge da normalidade", etc. O certo é que essa expressão esdrúxula faz o maior sucesso no meio dito pentecostal. E ai daqueles que falam alguma coisa contra isso! São taxados de frios e inimigos do "mover de Deus".
Mas, quer saber de uma coisa? Está na hora de darmos uma basta nessas efemeridades e brincadeiras na casa de Deus!
De onde tiraram essa idéia de que um culto só é pentecostal se pessoas marcharem, pularem, contorcerem-se ou caírem? Que negócio é esse de os crentes ficarem rodopiando pra lá e pra cá? E os servos de Deus que estudam as Escrituras, oram, jejuam, evangelizam e se santificam? São eles inferiores aos crentes do reteté em razão de não tomarem parte em seus reboliços?

QUEM GOSTA DO RETETÉ?

Já estive em várias reuniões do reteté. Os "hinos" são apresentados em ritmos como axé, com batuques que lembram reuniões de candomblé, e muito forró. Pura carnalidade! Pessoas rodopiam, caem, riem, berram, etc. E alguns obreiros tolerantes, frouxos, ainda dizem que isso se trata apenas de meninice.
Ah, se o reteté fosse apenas meninice! Bastaria ensinar os "meninos" no caminho em que devem andar, não é mesmo?
Porém, são poucos os crentes que se envolvem com práticas estranhas por falta de amadurecimento. A maioria gosta desses "moveres" por carnalidade e falta de temor a Deus! E, em alguns casos, verifica-se até apostasia decorrente de influência maligna (cf. 1 Tm 4.1).
Obreiros neófitos gostam do tal reteté, a ponto de se indignarem contra quem estimula o povo a ler mais a Bíblia e ser mais equilibrado. Eles dificilmente oram e, quando o fazem, valem-se das chamadas "orações de guerra". Ordenam, determinam, decretam... Esses anões espirituais não têm fome pela Palavra. Quando um pregador cita as Escrituras, bocejam. O negócio deles são as efemeridades; gostam de movimentos — da carne, é claro.
Um dia desses, em um dos aeroportos brasileiros, eu me pus a ler a Bíblia na sala de embarque — não é sempre que faço isso em lugares como esse —, a espera da chamada de meu vôo. De repente, um famoso super-pregador do reteté, de mãos vazias, se aproximou. Sentando-se ao meu lado, ele disse, num tom que me pareceu zombeteiro ou um tanto desdenhoso: "Pois é... quem ensina precisa mesmo ler a Bíblia".
Tentei inutilmente conversar com ele sobre o que eu estava lendo nas Escrituras, mas o seu negócio era contar vantagens. Apresentou-me, em cerca de dez minutos, toda a sua agenda... Depois que nos despedimos, fiquei pensando que, para manipular os ingênuos crentes do reteté, realmente não é preciso ler a Bíblia. Basta ter à mão um arsenal de animação de auditório, suficiente para garantir o "mover de Deus".

UNÇÃO DA GARGALHADA

No site YouTube (www.youtube.com) há uma infinidade de vídeos para todos os gostos. Foi lá que encontrei vários cultos do reteté e aberrações sobre os ministérios de super-pregadores norte-americanos que muitos crentes idolatram. Alguns deles são gurus da confissão positiva, modismo pernicioso que, há alguns anos, tem levado muitos crentes a abandonarem o evangelho de Cristo.
Está no YouTube para todos verem um "culto" em que um famoso pregador — cujas iniciais do nome são K.H. —, pouco antes de morrer, precisando ser amparado por dois obreiros para não cair, ministrava à platéia a "unção do riso". Simplesmente, grotesco. Todos que vêem o vídeo confirmam: "Isso é uma aberração". Alguns se convencem de que não se trata apenas de uma histeria coletiva — há influência demoníaca mesmo.
No tal vídeo, uma mulher uiva, como se fosse um lobo. Pessoas caem e lançam-se umas sobre as outras, dando gargalhadas similares àquelas que só podem ser ouvidas em filmes de terror. Um casal sentado, ao ser fitado por K.H., cai ao chão "em câmera lenta", como se estivesse derretendo — o semblante deles é assustador.
Os vídeos de outro não menos famoso super-pregador, cujas iniciais do nome são B.H., também impressionam. Vestido como um astro e parecendo um super-herói, derruba a todos os que estão à sua frente. Ele é um show-man. Pessoas se enfileiram para receber o golpe de seu "paletó mágico". Mas, se realmente a unção de Deus está sobre B.H., por que não forma uma fila de paralíticos, a fim de levantá-los?
Em outro vídeo, certo pregador brasileiro — e o principal propagador do reteté —, demonstrando total falta de bom senso, afirma que não queria apenas receber o sopro de B.H.: "Se o sopro dele é tão poderoso, eu queria que cuspisse sobre mim". Como se vê, essa "nova unção" para derrubar pessoas tem contribuído muito mais para que os super-pregadores recebam glória dos homens do que para a glorificação do nome do Senhor Jesus.

UNÇÃO DO LEÃO

No livro Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria, eu fiz menção da unção dos quatro seres, por meio da qual "adoradores" caem ao chão, rugem como leões, batem os braços como águias, imitam bezerros, etc. Certa cantora — que tem um grande poder de influência sobre a juventude — foi um pouco mais além. Sob a "unção do leão", engatinhou em um palco, levando milhares de fãs ao delírio.
Em seu blog, ela afirmou o seguinte acerca do episódio:

Saímos para a ministração às 16h. Me vesti de acordo com o que o Espírito colocou em meu coração. Um vestido de veludo azul que comprei há mais de 10 anos no Seminário em Dallas. Um cinto preto largo com "cara" de autoridade. Botas pretas, assim como na última viagem em Florianópolis, com essa mesma mensagem de força, poder, autoridade, e conforto necessário para pular e pisar com força, profeticamente, na cabeça do diabo (...) Meus brincos comprados em Israel, e o anel com a pedra ametista que ganhei quando eu nasci. Olhei para mim mesma no espelho e vi uma guerreira (...) Houve um momento em que fez um "clique". Uma mudança na atmosfera. Depois da música "Manancial" comecei a receber palavras proféticas... A música acompanhou... O poder de Deus era palpável, e as palavras proféticas continuaram. Um cântico espontâneo sobre o Cordeiro e o Leão marcou para sempre a minha vida. E a unção de autoridade foi ministrada sobre nós (...)
De repente, começamos a celebrar, mas foi diferente. Eu saltava e parecia que estava em um trampolim, uma cama elástica. Se antes pulava para romper, agora eu me sentia voando, pulando muito alto, minhas pernas esticadas iam alto, ao menos essa era a sensação, mas depois outras pessoas confirmaram. O vento nos meus cabelos e a sensação era de pulos muito altos. Eu sabia que algo diferente estava acontecendo. Quando pulei uma última vez, senti que era para me assentar. Não sabia se teria forças para me levantar outra vez. Foi quando senti o impulso, me agachei e comecei a andar como o Leão.
Pensamentos vieram à minha mente. Eu disse ao Senhor: "É... agora a minha reputação acabou. Agora vou ver quem vai ficar comigo". Mas prossegui, consciente do que estava acontecendo, e senti a direção até mesmo de onde eu deveria ir. Quando parei, não sabia como ou que fazer ao me levantar. Ainda no chão, me ergui de meio corpo e gritei: "Um brado de vitória ao Senhor" (sem saber se alguém responderia), e o som foi poderoso.
A música terminou grandiosamente. Era o Leão da Tribo de Judá.

Até que ponto os impulsos que sentimos podem ser atribuídos ao Espírito de Deus? Dirigiria Ele alguém quanto a efemeridades, como tipo de roupa e calçado, penteados, cinto e até os brincos a serem usados para participar de um culto, ou melhor, show? Ou levaria Ele um crente a andar como um quadrúpede? Não vou citar muitas passagens bíblicas para refutar tal aberração e responder a essas perguntas. Basta lermos com meditação 1 Coríntios 14 para percebermos como essa talentosa cantora e compositora está equivocada quanto à operação do Espírito Santo.

TRANSFERÊNCIA DE UNÇÃO

Encontrei no site de relacionamentos Orkut, na Internet, o currículo de um super-pregador, que se diz avivalista: "Prepare-se para receber uma transferência de unção! Deus tem levantado uma geração de avivalistas extravagantes, pessoas como você e eu que renderão seu espírito numa dimensão mais profunda ao Espírito Santo de Deus, a fim de sermos agentes mobilizadores de avivamento em nossas cidades".
Tratarei do chamado avivamento extravagante em outro capítulo, mas o tal pregador citou algo que tem ocorrido em algumas reuniões do reteté: transferência de unção. Pessoas se abraçam fortemente; algumas ficam literalmente grudadas; outras encostam as suas testas umas nas outras; e há aquelas que caem ao chão movimentando-se violentamente.
Os defensores desse modismo aberrante argumentam de modo equivocado que Moisés transferiu a sua unção para setenta anciãos. Na verdade, Deus usou o seu servo como um canal para dar a outros setenta homens a sua (de Deus) unção, por assim dizer, como se lê em Números 11.16,17. Observe que a capacitação proveniente do Espírito, que é imensurável, foi partilhada pelo próprio Deus com os servidores de Moisés.

E disse o SENHOR a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, de quem saber que são anciãos do povo e seus oficiais; e os trarás perante a tenda da congregação, e ali se porão contigo. Então, eu descerei, e ali falarei contigo, e tirarei do Espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que tu sozinho o não leves.

Não há na Palavra do Senhor apoio algum para a tal transferência de unção. Trata-se de um modismo perigoso. Deus até nos confere poder do alto através da intercessão de seus verdadeiros servos, obedientes à Palavra (2 Tm 1.6; At 5.12; 8.17-19), mas nunca por meio de espetáculos de super-pregadores soberbos, antiéticos, amantes do dinheiro, que agem segundo o que pensam e sentem, desprezando a vontade de Deus (Mt 7.21-23).

UNÇÃO DE MONTES E CIDADES

Muitos também — ignorando que a Bíblia é a nossa regra de fé, de prática e de vida — querem agir por conta própria quanto à unção com óleo, aplicando-a de modo indiscriminado.
Não obstante, somente o ministério está autorizado a ungir os enfermos. Tiago, ao mencionar presbíteros, referiu-se aos ministros chamados por Deus, vedando essa prática a diáconos, cooperadores e membros (cf. Tg 5.14; Mc 6.13).
Certos pregadores têm afirmado que é preciso ungir casas, carros e até cidades para que tenhamos a bênção de Deus. Um deles conta que, ao ter chegado a uma cidade, como nenhuma alma se entregava a Jesus, Deus lhe revelou uma nova estratégia de evangelização — percorrer a cidade inteira de carro, derramando azeite por onde passasse. Haja azeite! Se essa é a solução, como ungir uma cidade grande como o Rio de Janeiro?! E se alguém resolver ungir todo o Brasil?!
Há algum tempo, seguidores de um grupo "evangélico" resolveram, numa "atitude profética", escalar e ungir o pico Dedo de Deus, na região serrana do Rio de Janeiro. Outros enterram garrafas ou latas de azeite em montes, a fim de tornar o produto da oliveira "poderoso". Depois, o empregam em suas campanhas para ungir casas, carros, carteiras de trabalho, etc. Ungem até os enfermos no local da enfermidade!

ESTRANHA UNÇÃO PARA OS ENFERMOS

Alguns pregadores têm afirmado: "Eu fui chamado para pregar milagres". Na verdade, nenhum servo de Deus foi chamado para pregar os efeitos do evangelho, e sim o próprio evangelho (Mc 16.15). E os tais efeitos devem acontecer naturalmente, como conseqüência da proclamação do evangelho (Mc 16.17-20), e não de maneira induzida.
Jesus curou muitas pessoas (Mt 8.16,17). Os apóstolos também, em nome do Senhor, fizeram obras extraordinárias, até maiores do que algumas praticadas pelo Mestre (At 5.15,16; 19.11,12), como Ele prometera (Jo 14.12). Contudo, não há apoio bíblico para as operações estranhas que vêm ocorrendo em nossos dias.
Certos milagreiros esfregam óleo no local da enfermidade, para depois extrair objetos que supostamente indicam a ocorrência de enfermidades ou "trabalhos malignos". Essas "operações" têm gerado muita confusão no meio do povo de Deus, e não são poucos os obreiros que fazem perguntas sobre o assunto.
Nos tempos bíblicos, o azeite era empregado diretamente nas feridas, mas como remédio (Is 1.6; Lc 10.34). Hoje, a unção para os doentes é apenas simbólica. Não deve ser aplicada no local da enfermidade. E se esta for numa parte íntima? Ademais, extrair pedaços de ossos, pedras, filetes com sangue ou algo parecido do corpo das pessoas — se é que não se trata de fraude — tem muito mais semelhança com as chamadas cirurgias mediúnicas do que com a manifestação de Deus.
Embora muitos milagreiros e seus defensores recorram a versículos bíblicos isolados para se justificarem perante o povo, não vemos na Bíblia apoio consistente às suas estranhas práticas. Não devemos aceitar como sendo da parte de Deus qualquer operação prodigiosa, pois a própria Palavra do Senhor nos manda testar, examinar, julgar, provar o que ouvimos, vemos e sentimos (At 17.11; 1 Ts 5.21; 1 Co 14.29; 1 Jo 4.1).
Alguém argumentará: "Jesus não untou os olhos de um cego com lodo feito com a sua saliva? Não devemos restringir os métodos de curar". Oh, sim. Mas Jesus não fez daquela prática um método para curar os enfermos. Além disso, aquele episódio isolado não respalda toda e qualquer prática dos milagreiros da atualidade.
Quanto à cura, Jesus disse: "... porão as mãos sobre os enfermos e os curarão" (Mc 16.18). E a imposição de mãos, como vimos, pode incluir a unção com óleo. Esta, no entanto, não é a condição primacial para a cura, que ocorre por meio da fé (Lc 8.48; 17.19).
Qual dos apóstolos precisou de azeite para levantar os enfermos? Já pensou se Pedro tivesse dito ao coxo junto à porta Formosa: "Jesus te cura depois; agora, estou sem azeite para ungi-lo"?!
"E quanto aos dons de curar?" — alguém perguntará. Ora, estes se referem às operações multiformes do Espírito Santo, e não às invenções dos criativos milagreiros. Deus age como quer.
Quando Ananias visitou a Saulo, que estava cego, tão-somente impôs-lhe as mãos, e caíram dos olhos do apóstolo algo semelhante a escamas (At 9.17-18). Houve um sinal visível da cura, porém Ananias não precisou empregar um método exótico.

RETETÉ DE TORONTO

Infelizmente, pastores hoje têm apostatado da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios (1 Tm 4.1). Mas há casos raros em que eles "desapostatam", isto é, arrependem-se, reconhecem o seu erro. Não foi esse o conselho que Jesus deu ao pastor da igreja em Éfeso? "Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres" (Ap 2.5).
O pastor canadense Paul Gowdy, que abraçara várias aberrações na Igreja Aeroporto de Toronto, arrependeu-se e escreveu, há algum tempo, uma carta, pela qual discorre sobre o seu retorno às verdades da Palavra de Deus. Ele menciona uma série de heresias, modismos e manifestações — chamadas por ele mesmo de demoníacas—que, infelizmente, muitas igrejas brasileiras estão experimentando. A diferença é a designação. Aqui, elas são conhecidas como "reteté", "unção da loucura", etc.
Mas, na tal carta, publicada em vários sites e blogs norte-americanos — como www.revivalschool.com e www.discernment-ministries.org —, o pastor Gowdy diz que não foi nada bom o que ocorreu na Igreja Aeroporto de Toronto. Ele já começa dizendo que a experiência de Toronto para ele foi uma mistura de maldição. Segundo a sua descrição, o resultado de todo aquele "mover" (ou, como diríamos aqui no Brasil, "reteté") foi que a igreja praticamente se auto-destruiu, esfacelando-se:

Devoramo-nos uns aos outros com fofocas, falando mal pelas costas, com divisões, partidarismo, críticas ferrenhas uns dos outros, etc. Depois de três anos "inundados" orando por pessoas, sacudindo-nos, rolando no chão, rindo, rugindo, rosnando, latindo, ministrando na igreja Internacional do Aeroporto de Toronto, fazendo parte de sua equipe de oração, liderando o louvor e a adoração naquele local, praticamente vivendo ali, tornamo-nos os mais carnais, imaturos, e os crentes mais enganados que conheci.

As manifestações dos dons espirituais na Igreja do Aeroporto, a partir de 1994, deram lugar à tal "bênção de Toronto".
O povo que ia à igreja deixou de ouvir a exposição da Palavra, receber libertação e graça vindas do Senhor, para ouvir gritos de "fogo!" e sacudir o corpo de modo estranho. Gowdy acredita que os líderes da igreja eram pessoas sérias, que amavam o Senhor, até que caíram no laço do engano.
Ele diz o seguinte dos líderes da Igreja do Aeroporto e de si mesmo:

Não amaram o Senhor o suficiente para guardar os seus mandamentos. Fracassaram por não obedecer as Escrituras, e se desviaram porque andavam algo maior e grandioso, mais empolgante e dinâmico. Eu também cometi este pecado. Preguei sobre esta renovação na Coréia, no Reino Unido, nos Estados Unidos e aqui no Canadá, e estou profundamente arrependido ao escrever este relato, e peço-lhes que vocês, a noiva e o corpo de Cristo me perdoem, especialmente os pentecostais e carismáticos, pois todos fazem parte de minha família teológica.

Gowdy também pergunta, num trecho da carta: "Como fiquei tão cego assim?" Ele diz isso, ao descrever como pessoas imitavam cachorros, faziam de conta que urinavam nas colunas da igreja, latiam, rugiam, cacarejavam, "voavam" e se comportavam como bêbadas. Hoje, ele não tem dúvidas de que tudo aquilo era algo irreverente e blasfemo ao Espírito Santo.
Ele diz que ficou perturbado com uma profecia que veio através da esposa de um dos líderes. Dizendo ter sido arrebatada à presença do Senhor Jesus, ela afirmou que o que experimentou foi muito melhor que sexo! "Como alguém pode comparar o amor de Deus ao sexo?", pensou o pastor Gowdy.
Mas o que mais impressiona em sua narrativa é o fato de ele reconhecer que os demônios agiam livremente em meio a todo aquele reteté, por assim dizer:

Quando começamos a suspeitar de que os demônios estavam à vontade em nossos cultos, John Arnot ensinava que devíamos nos perguntar se eles estavam chegando ou saindo. Se está saindo deles, está bem! John defendia o caos afirmando que não devíamos ter medo de sermos enganados, pois se havíamos pedido ao Espírito Santo para nos encher; como Satanás poderia nos enganar? (...)
Tais palavras eram convincentes, mas totalmente contrárias às Escrituras, pois Jesus, Paulo, Pedro e João alertaram-nos sobre o poder dos espíritos enganadores, especialmente nos últimos dias. Mesmo assim, não devotamos amor a Deus para lhe obedecer a Palavra, e, Como conseqüência, abrimo-nos à ação de espíritos mentirosos (...)
...eu rolava pelo chão, certa noite, "bêbado no Espírito", como costumávamos dizer, e ali, cantando e rolando no chão, comecei a cantar uma canção de ninar: "Maria tinha um cordeiro e seu pêlo era mais alvo que a neve". Cantei esta música infantil de maneira debochada e imediatamente alguma coisa em meu coração sussurrou que aquilo era um demônio...

Após essa triste experiência, Gowdy se arrependeu. "Como um demônio entrou em mim? Eu não amava a Deus? Não era zeloso pelas coisas de Deus? Não era totalmente apaixonado por Jesus?", questiona. Mas hoje ele não tem dúvidas de que espíritos imundos se manifestaram através de sua vida. E, por isso, se afastou da Igreja do Aeroporto e resolveu, anos depois, denunciar as experiências que ali viveu.
Ele também conta que pessoas de sua ex-igreja lhe perguntara m se já havia recebido a espada dourada do Senhor. E então lhes perguntou de que se tratava, pensando ser uma palavra profética relacionada com as Escrituras. Mas ouviu deles a seguinte resposta:

Não, não é a Bíblia; é uma espada invisível que somente os verdadeiramente puros poderão receber. Se for tomada de maneira errada, então será morto pelo Senhor. Mas, se você for santo o suficiente para recebê-la, então poderá desembainhá-la, pois ela cura aids, câncer, etc. e produz salvação. A pessoa deve fazer gestos de ataque, imaginando ter em suas mãos esta espada invisível, avançando sobre as pessoas enquanto está em oração!

"O que é isso, desenho animado?", alguém poderá perguntar. De fato, a descrição de Gowdy seria cômica se não fosse trágica. E, infelizmente, a realidade brasileira não é diferente. Muitos crentes empunham espadas douradas em vez da espada do Espírito (Ef 6.17); e calçam sapatos de fogo em vez dos calçados da preparação do evangelho da paz (Ef 6.15).
Paul Gowdy menciona outras manifestações e heresias — que abordarei em outros capítulos desta obra — e conclui a carta, arrependido por ter ensinado "coisas que não são bíblicas". Diz ele: "Eu não testei os espíritos quando a Palavra ordena que assim seja feito. Todos os que estavam ali quando estas coisas começaram a acontecer sabem que o que escrevo é a verdade".
Destaco agora algumas das últimas palavras contidas na carta:

... temos muitas contas a prestar; o Senhor lhes abrirá os olhos qualquer dia desses. Imagino que quando esta carta for publicada serei bombardeado por cartas de ambos os lados... Bem, o Senhor conhece meu coração e por sua graça haverá de me guiar a toda verdade, pois quero conhecer a Jesus Cristo o crucificado (...)
Creio que somos como a igreja de Laodicéia; pensamos que somos ricos, prósperos e sem necessidade alguma, e, no entanto não percebemos que estamos cegos e nus. Precisamos levar a sério o conselho de Jesus comprando ouro refinado no fogo (que fala do sofrimento e não de espíritos enganadores), vestiduras brancas para cobrir nossa nudez e colírio para os olhos para poder ver outra vez. O Senhor nos chama ao arrependimento, e graças ao Senhor pelo que ele é, pois nos conduzirá e nos restaurará ao Pai.

Ora, o que adianta os crentes rirem e rolarem pelo chão dentro dos templos, se as almas continuam perdidas do lado de fora?

Diante do exposto, cito ainda o que está escrito em 1 Coríntios 15.1,2: "Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual também recebestes e no qual também permaneceis; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado, se não é que crestes em vão".

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